Theodorico

Nas terras devastadas das Terras Pestilentas Ocidentais, onde a cicatriz da Terceira Guerra ainda marcava o solo de Azeroth, poucos estudiosos ousavam investigar os ecos de necromancia deixados pelo Flagelo.

Theodorico era um deles.

Mago humano dedicado ao estudo das interações entre magia arcana e energias da morte, ele acreditava que compreender os erros do passado poderia impedir que horrores semelhantes voltassem a acontecer.

Naquela expedição, ele não estava sozinho. Três companheiros caminhavam ao seu lado.

Fancy, um sacerdote humano que transitava com naturalidade entre a disciplina da Luz e os segredos sombrios do Vazio. Azaziel, um paladino anão cuja fé era tão firme quanto o aço de seu martelo. E Giz, um ladino humano acostumado a perceber perigos antes que eles se tornassem visíveis.

O objetivo da expedição era investigar uma cripta antiga usada no passado por necromantes ligados a Kel’Thuzad.

Eles encontraram a cripta. E o que restava lá dentro.

No centro da câmara havia um artefato necromântico — um conduíte usado para aprisionar ecos de almas durante os experimentos do Flagelo.

Mesmo anos após a queda de Arthas Menethil, o objeto ainda pulsava com energia instável.

Se continuasse ativo, atrairia espíritos inquietos e distorceria a magia da região.

Theodorico decidiu destruí-lo.

Fancy sustentava um círculo protetor com energia sombria controlada. Azaziel reforçava o ritual com bênçãos da Luz. Giz vigiava os corredores.

Quando o mago começou a desfazer o artefato, algo deu errado. O objeto não era apenas um foco. Era uma âncora de almas. Quando o selo arcano foi rompido, as energias acumuladas explodiram pela câmara.

Sombras da morte e fragmentos de espírito escaparam como um vendaval.

Theodorico compreendeu em um instante o que aconteceria se aquela energia se espalhasse pelas Terras Pestilentas. Então fez a única coisa possível. Ele canalizou toda a explosão para dentro de um selo improvisado.

O selo funcionou.

Mas o preço foi absoluto.

Quando a energia cessou, Theodorico estava caído no chão de pedra.

Sem vida.

Fancy tentou tudo.

Orações. Canalizações de energia espiritual. Rituais de preservação. Nada trouxe o mago de volta.

Foi Giz quem falou aquilo que ninguém queria dizer. Os Renegados ainda conseguiam trazer alguém de volta. Mesmo com uma inicial resistência, eles decidiram que a história de Theodorico não podia terminar daquela forma.

Dias depois, o corpo de Theodorico chegou às ruínas de Lordaeron, agora governadas pelo Conselho Desolado.

Ali, após ouvir a história de seu sacrifício, Lilian Voss permitiu que um ritual fosse tentado.

A tarefa foi confiada à Val’kyr Annhylde, a Convocadora, uma das antigas servas do Lich Rei que haviam jurado lealdade aos Renegados após a queda da Coroa de Dominação.

Na noite do ritual, o corpo foi colocado sobre a pedra fria diante das ruínas.

Annhylde abriu suas asas espectrais.

O ar ficou pesado. Ela chamou a alma. Por um longo momento nada respondeu.

Então algo se moveu no véu entre vida e morte.

A alma de Theodorico ainda estava próxima ao mundo, presa entre o eco da explosão necromântica e o feitiço que ele próprio havia lançado.

A Val’kyr puxou a essência de volta ao corpo.

O cadáver estremeceu. Os olhos se abriram lentamente. Não houve respiração.

Apenas o despertar silencioso da não-vida.

Levado ao interior de Lordaeron, Theodorico foi apresentado ao Conselho Desolado.

Entre os presentes estava Lilian Voss, que o observou por longos segundos antes de fazer a pergunta essencial.

— Você sabe o que é agora?

— Algo que deveria estar morto… mas não está.

Os Renegados aceitaram a resposta.

Quando perguntaram se ele desejava permanecer entre eles ou retornar ao descanso final, o mago respondeu com uma serenidade inesperada.

— Eu já morri tentando impedir que aquela magia escapasse.
— Talvez agora eu possa entendê-la.

Assim, sem juramentos formais ou cerimônias grandiosas, Theodorico tornou-se um dos Renegados.

Nos meses seguintes, ele trabalhou entre alquimistas e necromantes de Lordaeron, estudando artefatos deixados pelo Flagelo.

Mas o mundo raramente permanecia em paz por muito tempo. Quando notícias chegaram das Ilhas do Dragão, dizendo que forças perigosas ameaçavam corromper a nova árvore do mundo Amirdrassil, campeões de toda Azeroth foram convocados.

Os Renegados enviaram seus próprios representantes. Entre eles estava Theodorico.

Nas profundezas da nova árvore do mundo, quando forças sombrias tentaram corromper suas raízes, o mago morto-vivo lutou ao lado dos campeões de Azeroth. Não como um herói glorioso. Mas como alguém que já havia cruzado a fronteira da morte… e retornado.

Quando a ameaça finalmente foi derrotada e Amirdrassil permaneceu de pé, Theodorico voltou para Lordaeron.

E foi ali que reencontrou um velho amigo Fancy. O sacerdote aguardava nas ruínas externas da cidade.

Fancy sempre fora um sacerdote incomum. Caminhava com naturalidade entre os domínios do Vazio e da Luz, alternando entre disciplina e sombras conforme a necessidade.

Quando viu o amigo morto-vivo se aproximar, não recuou.

— Então era verdade — disse ele.

— Eu ouvi dizer que você sobreviveu a Amirdrassil.

— Sobreviver nunca foi o problema — respondeu Fancy.

Caminharam juntos pelas ruínas da antiga capital.

Depois de algum tempo, o sacerdote revelou o motivo de sua visita. Ele estava indo embora.

Não morrer. Apenas… encerrar sua jornada. Fancy havia lutado em guerras demais.

A Legião Ardente. As guerras entre facções. As batalhas contra mortos-vivos. E agora as Ilhas do Dragão.

Em algum momento percebeu que lutava por hábito, não por propósito.

— Alguém precisa viver a vida que você perdeu — disse ele.

Theodorico respondeu com serenidade:

— E alguém precisa continuar lutando.

Os dois apertaram as mãos pela última vez.

Fancy partiu naquela mesma noite.

Sem cerimônias. Sem discursos. Apenas um sacerdote caminhando sozinho pela estrada.

Theodorico permaneceu. Mas não retornou ao front. Sob a supervisão de Lilian Voss e do Conselho Desolado, passou a atuar como parte da retaguarda estratégica da Horda.

Ele estudava artefatos perigosos. Analisava ecos de necromancia. Decifrava magias antigas antes que elas se tornassem ameaças novamente.

Alguns Renegados passaram a chamá-lo de algo curioso: um arquivista da morte.

Certa noite, enquanto examinava fragmentos arcanos recolhidos nas Ilhas do Dragão, rumores começaram a circular entre os emissários da Horda.

Algo estava acontecendo no norte.

Na cidade élfica de Luaprata, em Quel’Thalas.

Desde a restauração da Nascente do Sol, Luaprata voltara a ser um dos maiores centros de magia de Azeroth. E quando magia poderosa começa a se agitar, os estudiosos percebem primeiro.

Theodorico não perguntou detalhes. Chamados importantes raramente chegam de imediato. Primeiro vêm os rumores. Depois os mensageiros. Por fim… a convocação.

Quando ficou sozinho naquela noite, ele caminhou até uma das janelas quebradas de Lordaeron. O vento frio atravessava as ruínas. Em algum lugar além das florestas de Quel’Thalas ficava Luaprata.

Se os rumores fossem verdadeiros, o chamado viria.

E quando viesse, o mago que morrera nas Terras Pestilentas estaria pronto. Não para liderar a carga. Mas para garantir que a Horda estivesse preparada para o que quer que estivesse despertando nas antigas correntes da magia. Porque mesmo longe do front… algumas batalhas ainda dependiam dele.

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