Celleriel
Celleriel nasceu nos anos finais da reconstrução de Luaprata, quando a cidade já não era apenas ruína, mas também ainda não era lar pleno. Cresceu entre paredes remendadas, ruas que carregavam memórias de incêndio e um povo que aprendera a viver com o luto como paisagem.
Para os mais velhos, ela era jovem demais para lembrar do que fora perdido. Para os mais novos, parecia carregada de uma pressa estranha — como se tentasse alcançar uma dor que não viveu.
Desde cedo, escolheu o caminho das armas. Não por tradição, mas por inquietação.
A magia sempre esteve presente em Quel’Thalas, mas Celleriel buscava algo mais direto, mais físico, como se o peso do aço em suas mãos pudesse ancorá-la a um mundo que lhe parecia sempre prestes a ruir de novo.
Seu treinamento como guerreira foi marcado por intensidade e impaciência. Ela aprendia rápido, mas errava por pressa. Tinha força, mas faltava-lhe leitura de campo. Coragem, mas ainda não discernimento.
Entre os elfos mais experientes, Celleriel encontrava resistência. Alguns a viam como “criança brincando de guerra”. Outros desconfiavam de sua presença na linha de frente — não por desprezo, mas por medo de vê-la cair cedo demais.
Foi nos Salões de Sangue que Celleriel cruzou pela primeira vez com Meldarion. Não como discípula direta, mas como alguém que insistia em treinar além do horário permitido, como se temesse que o dia seguinte não chegasse.
Ele a observou por semanas antes de dirigir-lhe a palavra — não para corrigir sua postura, mas para perguntar por que ela treinava como quem foge. Também não a tratou como soldado pronta nem como peso morto. Ensinou-lhe disciplina sem quebrar seu ímpeto. Mostrou-lhe que fé na Luz não é bravata, mas constância — algo que se constrói com quedas repetidas.
Waldemyrus surgiu pouco depois, em uma de suas passagens por Luaprata, em busca de textos antigos sobre os Titãs preservados nos arquivos da cidade. Ao ver Celleriel sair do salão com as mãos trêmulas e o olhar cansado, reconheceu nela algo que já vira em muitos aventureiros: o peso de querer ser mais do que se é no tempo errado.
Com ele, Celleriel encontrou algo diferente: alguém que não exigia dela certezas. Ele a ensinou a fazer perguntas — sobre si mesma, sobre o campo de batalha, sobre o tipo de guerreira que queria ser quando a pressa da juventude cedesse lugar à permanência.
Entre esses dois olhares, Celleriel começou a entender que não precisava provar nada a Luaprata naquele momento. Precisava apenas não desistir de aprender.
Quando sussurros do Vazio começaram a ecoar nos arredores de Quel’Thalas, e a sombra dos sectários da Lâmina do Crepúsculo passou a rondar antigas rotas e santuários esquecidos, Celleriel sentiu o chamado não como glória, mas como urgência. Havia algo se movendo nas frestas da reconstrução de Luaprata — algo que não se enfrenta apenas com muros e sentinelas.
Ela não partiu como heroína. Partiu como alguém que sabe que vai errar — mas que escolhe errar andando para frente.
Ainda jovem, ainda insegura, ainda impulsiva. Mas determinada a não ser apenas mais uma lâmina erguida no calor da batalha.
Ela quer ser muralha quando a cidade precisar de muralhas. E espada apenas quando não houver mais paredes para sustentar.